Outro país de poetas a Colômbia

Esta completísima y bien reflexionada crítica fue publicada por David Teles Pereira en el suplemento Ipsilon del periódico “Público” de Portugal. La crítica ocupa una página entera de esta prestigiosa publicación. En Las fotos se ve la antología de poesía colombiana expuesta en la vitrina de la librería Bertrand en el centro de Lisboa.
Junio 1 de 2012
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“Um País que Sonha – cem anos de poesia colombiana”, prólogo e selecção de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice, Assírio & Alvim, 2012.
Nota: quatro estrelas.
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Em Portugal, as antologias colectivas de poesia estrangeira nunca conseguiram ser mais do que projectos descontinuados e, quase sempre, individuais. Até hoje nenhuma editora manifestou a mais ténue intenção de construir de forma crítica e sistemática um conjunto de antologias de poesia de outras línguas, expediente que, a ser levado a sério, daria aos leitores portugueses de poesia um mapa de iniciação sem paralelo na história da publicação no nosso país. Talvez seja justo reconhecer à Assírio & Alvim e à Relógio d’Água um papel menos tímido a este propósito que o das suas concorrentes, mas mesmo aí a publicação é demasiado lacunar e acidental para que se possa falar com propriedade de um projecto.
Serve isto para dizer que basta a publicação de “Um País que Sonha – cem anos de poesia colombiana” (Assírio & Alvim, 2012) para Lauren Mendinueta e Nuno Júdice ganharem um lugar de destaque na divulgação de poesia em língua estrangeira. Isto é, apesar de todo o mérito que esta obra sempre teria fossem quais fossem as condições do nosso panorama editorial, sintomático de uma subalternização da poesia, principalmente se tivermos em conta que estas antologias panorâmicas, pela dimensão e pelos custos, muito dificilmente poderão ser publicadas pelas pequenas editoras que, noutras vertentes da poesia, ainda vão impedindo o oblívio. Livros como este são indispensáveis num universo editorial em que a publicação e a divulgação de poesia estrangeira são por demais insatisfatórias.
“Um País que Sonha” é uma antologia de cem anos da poesia colombiana, não dos últimos cem anos, mas dos que correram desde o nascimento de José Asunción Silva, um dos primeiros modernistas, no sentido de Rubén Darío, que, aliás, constrói um universo estilístico e referencial próximo do grande poeta nicaraguense: “Doente:/ Doutor, um desalento da vida/ que no meu íntimo se enraíza e nasce,/ o mal do século… o mesmo que Werther,/ de Rolla, de Manfredo e de Leopardi./ (…) Médico:/ – Isso é uma questão de regime: caminhe/ pela manhãzinha; durma bem; tome banho;/ beba à vontade; coma melhor; muito cuidado consigo:/ O que você tem é fome…!” (p. 27). A título de complemento, pode-se contar que no dia 24 de Maio de 1986 Asunción Silva pediu a um amigo médico que lhe desenhasse uma cruz no coração, tendo-se suicidado nessa mesma noite com um tiro no lugar assinalado.
Ainda a propósito deste poeta, vários dos textos, de outros autores, que vão povoando esta antologia manifestam uma intertextualidade curiosa com a sua obra, a começar pelo poema de Santiago Mutis Durán (filho de Álvaro Mutis, outro dos grandes poetas colombianos) que tem como título o nome do poeta de Bogotá e que reflecte, de certa forma, os processos de diálogo e conflito que as gerações de poetas colombianos têm mantido com o seu primeiro modernista: “Ao longo de cem anos/ lutámos para que no fim te parecesses/ connosco – donos das tuas cinzas/ A tua integridade/ irrita-nos e envergonha-nos/ A tua dignidade/ ofende/ quem preferiu/ outros caminhos.” (p. 330).
Convém acrescentar que os cem anos retratados nesta antologia correspondem a um período particularmente turbulento da história da Colômbia, marcado por uma grande instabilidade política e social e por episódios de extrema violência, uma época obscura, como aparece descrito no prólogo a esta obra. Ao ler esse texto assinado por Lauren Mendinueta, um leitor não pode deixar de se sentir cativado pela proposição, mostrar a poesia colombiana como “um espelho em que se reflecte a [sua] sociedade” (p. 15), nessa estranheza resultante do facto de a poesia ser contrastante e, ao mesmo tempo, fiel à realidade.
Diga-se que, logo à partida, esta tese, que aparentemente faz todo o sentido no caso colombiano, é muito pouco recomendável na generalização que as palavras da autora, apesar de todo a sua lhanura, dão a entender. Basta pensar uns segundos na nossa própria história, também ela marcada por uma série de períodos obscuros e que, nem por isso, foram poeticamente os mais enriquecedores. Parece que a história da poesia nos permite concluir que o seu florescimento ou a sua agonia dependem muito mais de poetas e muito menos de acontecimentos. O que actualmente se escreve em Portugal é, em parte, prova do que se acabou de dizer.
Isto não afecta, de qualquer forma, o mérito deste trabalho, ao qual deve ser dado o maior destaque. Depois de ler o prólogo não é difícil intuir que se esta antologia chegou às livrarias isso deve-se, em quase toda a sua dimensão, ao esforço pessoal de Lauren Mendinueta. Mas, também, ao excelente trabalho de Nuno Júdice, que traduziu cerca de quatrocentas páginas de poemas de mais de sessenta poetas.
Tal não deve, mesmo assim, impedir que se chame a atenção para alguns dos aspectos menos conseguidos desta antologia. Logo no início do prólogo, a autora refere que “esta não é uma antologia crítica nem exaustiva. A ter sido crítica teria contido menos autores, a ter sido exaustiva teria necessariamente que incluir muitos mais” (p. 14). Uma antologia crítica não se afere propriamente por um critério quantitativo, mas antes por um trabalho de construção e sistematização de uma proposta de leitura que terá, normalmente, um resultado menos inclusivo. Não é pelo número de poetas que inclui que esta não é uma antologia crítica, é pela falta de critério de selecção, que se deve em parte ao número de poetas escolhidos, mas principalmente aos poucos poemas escolhidos de cada poeta, à falta de pistas de leitura sugeridas no prólogo ou nas curtas notas biográficas dos poetas incluídos e à incapacidade de tanto estes elementos como a selecção dos poemas darem a entender aos leitores as singularidades, as propostas e as tensões da poesia colombiana entre 1865 e 1965.
Estes sistemas de apresentação e, mais ainda, de selecção têm o grande inconveniente de nivelar por baixo as antologias. Os poucos poemas que são escolhidos de cada autor – normalmente três ou quatro –, impedem à partida que se perceba que há grandes poetas neste período da literatura colombiana. Mereciam maior destaque autores como Guilhermo Valencia, León de Greiff, Álvaro Mutis ou Gonzalo Arango, este último, ainda assim, antologiado com alguns dos versos mais interessantes deste livro: “Éramos deuses e fizeram-nos escravos./ Éramos filhos do Sol e consolaram-nos com medalhas de lata./ Éramos poemas e puseram-nos a recitar uma esmolinha por amor de Deus” (p. 165). No mesmo sentido, admitindo que cem anos de poesia colombiana terão necessariamente produzido muito mais poetas merecedores de serem antologiados, não é por isso que esta não deixa de ser escolha bastante inclusiva e que, em última análise, acaba por conduzir a uma acumulação de poemas que, tirando cronologicamente, não vem de lado nenhum e não vai para lado algum. Por outras palavras, ao terminar a leitura de “Um País de Sonha” fica-se a conhecer mais de sessenta poetas colombianos mas, infelizmente, pouco se fica a saber sobre a poesia colombiana. É de lamentar que assim seja, principalmente porque fica por demonstrar aquilo que se escreveu no prólogo: a Colômbia é “um país em que se escreve uma grande literatura” (p. 17) ou “é um país de poetas” (p. 14).
Por outro lado, quando Lauren Mendinueta destaca a relevância que os períodos de convulsão e violência da história da Colômbia tiveram nas obras de grande parte dos poetas antologiados, teria sido interessante que este livro procurasse, em parte, mostrar isso mesmo, o que acaba por não acontecer, apesar de algumas excepções, como nos poemas escolhidos de María Mercedes Carranza, uma das melhores sequências deste livro: “As janelas mostram paisagens destruídas,/ carne e cinza confundem-se nos rostos,/ nas bocas as palavras revolvem-se com medo./ Nesta casa todos estamos enterrados vivos.” (p. 253) ou “O assassino dança a Dança da Morte:/ um passo em frente, uma bala no coração,/ um passo atrás, uma bala no estômago (…)/ Todas as línguas da terra maldizem o assassino” (p. 256).
Os reparos que se fizeram devem, ainda assim, ser aliviados. É de louvar que alguém invista tamanho esforço pessoal na divulgação de poesia, pelo que, só por isso, esta antologia merece um enorme elogio. E, mais ainda, porque em quatrocentas páginas de poemas há momentos que conseguem superar o tom geral a que os problemas de trabalho formal acabaram por conduzir: “A poesia é a única companheira/ habitua-te às suas lâminas/ pois é a única” (de Raúl Gómez Jattin, p. 245).
David Teles Pereira

 

 

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